O primeiro passo para começar a rezar
Toda oração é um relacionamento entre a nossa miséria e a misericórdia de Deus. Rezar não é simplesmente mexer os lábios, mas encontrar-se com uma Pessoa. Descubra qual o primeiro passo para começar a ter vida de oração, a partir da lição do Senhor: "Tu, quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai que está no escondido" (Mt 6, 6).
I. A oração é um encontro...
Após termos considerado a importância e a necessidade da prece cristã, devemo-nos ocupar agora da prática concreta da oração. Por isso, é preciso saber, em primeiro lugar, de que maneira convém começar a orar. Antes de mais, porém, deve-se ter presente que a oração, se feita de modo autêntico, não é senão um encontro, o que supõe, naturalmente, pelo menos duas presenças: a de quem ora e a de Deus. É isto o que o Senhor nos revela, pouco depois de haver ensinado o Pai-nosso, ao dizer às multidões que O ouviam ao pé da montanha: "Tu, quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai que está no escondido" (Mt 6, 6). Este "orare Patrem in abscondito" consiste, portanto, em falar a Deus no segredo e na intimidade do nosso coração. Mesmo quando feita em comunidade — em família ou na igreja —, a verdadeira prece do cristão deve ter sempre essa nota de "solidão com Deus", ou seja, de encontro íntimo e pessoal com Aquele "a quem falamos ao rezarmos e a quem ouvimos ao lermos os divinos oráculos" [1]. Esta advertência para a presença de Deus é tão essencial à nossa oração que os Padres espirituais da Igreja chegavam a insistir na necessidade de nos lembrarmos dEle com mais frequência do que respiramos (cf. CIC 2697) [2].
II. entre a nossa miséria e a Misericórdia
Disto decorre que, antes mesmo de começarmos a rezar, precisamos encontrar-nos com a nossa miséria para só então, cientes de nossa indignidade, nos encontrarmos com a misericórdia de Deus. Santa Teresa d'Ávila refere-se à conveniência deste recolhimento interior ao escrever às suas monjas que "a primeira coisa a fazer" antes de iniciarmos nossa oração "é o exame de consciência" [3], quer dizer, a consideração sincera de como nos achamos física, afetiva e, sobretudo, espiritualmente — nossos pecados, imperfeições, infidelidades etc. —, pois se fugirmos à verdade sobre nós não poderemos pôr-nos diante dAquele que é a própria Verdade (cf. Jo 14, 6). Assim, quando nos houvermos recolhido o suficiente, temos de procurar ter conosco a companhia do Mestre que quer ensinar-nos a falar-lhe com franqueza e confiança; neste momento, convém fazer algum ato preparatório, presente nas diversas coletâneas de orações que por aí circulam [4], a fim de avivarmos nossa fé na presença viva do Senhor. "Representai", conclui Santa Teresa, "que tendes o próprio Senhor junto de vós e vede com que amor e humildade Ele vos ensina; e, acreditai-me, enquanto puderdes, não fiqueis sem tão bom amigo" [5].
III. O recolhimento já é oração
Este recolhimento de que falamos acima já pode, com propriedade, ser chamado oração. Sem ele, por muito que mexamos os lábios, não poderemos orar verdadeiramente: será, no máximo, ruído, um chacoalhar de latas, coisa a que de forma nenhuma poderíamos chamar oração [6]. Isto porque é apenas por meio do recolhimento que o homem se coloca em situação de relacionar-se de forma genuinamente humana com os demais e, acima de tudo, com Deus. Pois o recolhimento "confia à oração uma alma unificada", reunida em si mesma e desperta para o Tu divino. "É, em suma, o estado em que é possível dizer, na expressão das Sagradas Escrituras: Eis-me aqui!" (cf. 1Sm 3, 4-8) [7]. Por isso, o homem que ora de modo recolhido pode dizer: "Deus está aqui, e eu também estou" [8]. É a partir desse encontro, feito no silêncio e no escondido — in abscondito — que passaremos a ter vida de oração, porque o recolhimento, como dissemos, já é, em si, uma forma de orar, mesmo que ainda não nos tenhamos dirigido Àquele em cuja presença nos encontramos.
FONTE: Padre Paulo Ricardo
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